Reflexão em Essência Compartilhada

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Um luto que não é luto exatamente é pior...


Sou mulher de comunicação e assumo isso.
Estou de luto não porque a policia esta fazendo o correto, mas pela forma como a sociedade se comporta enquanto cidadãos perdem sua paz e moradia.
Me entristeço
quando 'o mundo' 

'todo mundo'
se põe atento nesses momentos.
Estou triste.
me nego a ver tv, 
a ouvir radio e a ler jornais.
Fiquei ainda mais triste ao ver pela tv ontem,
tanta gente na rua enquanto a policia trabalhava.
Perguntei que gente é essa?
Minha família que ávida pelo que acontecia
não tirava do canal
respondeu:
são jornalistas de 'todo mundo'.
Com os olhos cheios de agua
e o peito apertado, como carioca por adoção
por la vivi 40 dos meus 47 anos.
sai da sala cabisbaixa
Abraçando com força o livro de Vinicius
que acabara de pegar na estante do amigo que nos hospedava em SP,
fui sentar no chão do lado de fora da casa, procurava respirar. Liguei pro Fernando pedindo que fizesse abertura e o encerramento do Espelhando nesse domingo, 
com Vinicius.
Aos prantos passei a ler um poema que amo e que nesse livro encontrei por consolo e por acaso:


"Carta aos Puros" (Vinicius de Moraes)


Ó vós, homens sem sol, que vos dizeis os Puros
E em cujos olhos queima um lento fogo frio
Vós de nervos de nylon e de músculos duros
Capazes de não rir durante anos a fio.


Ó vós, homens sem sal, em cujos corpos tensos
Corre um sangue incolor, da cor alva dos lírios
Vós que almejais na carne o estigma dos martírios
E desejais ser fuzilados sem o lenço.


Ó vós, homens iluminados a néon
Seres extraordinariamente rarefeitos
Vós que vos bem-amais e vos julgais perfeitos
E vos ciliciais à idéia do que é bom.


Ó vós, a quem os bons amam chamar de os Puros
E vos julgais os portadores da verdade
Quando nada mais sois, à luz da realidade,
Que os súcubos dos sentimentos mais escuros.


Ó vós que só viveis nos vórtices da morte
E vos enclausurais no instinto que vos ceva
Vós que vedes na luz o antônimo da treva
E acreditais que o amor é o túmulo do forte.


Ó vós que pedis pouco à vida que dá muito
E erigis a esperança em bandeira aguerrida
Sem saber que a esperança é um simples dom da vida
E tanto mais porque é um dom público e gratuito.


Ó vós que vos negais à escuridão dos bares
Onde o homem que ama oculta o seu segredo
Vós que viveis a mastigar os maxilares
E temeis a mulher e a noite, e dormis cedo.


Ó vós, os curiais; ó vós, os ressentidos
Que tudo equacionais em termos de conflito
E não sabeis pedir sem ter recurso ao grito
E não sabeis vencer se não houver vencidos.


Ó vós que vos comprais com a esmola feita aos pobres
Que vos dão Deus de graça em troca de alguns restos
E maiusculizais os sentimentos nobres
E gostais de dizer que sois homens honestos.


Ó vós, falsos Catões, chichisbéus de mulheres
Que só articulais para emitir conceitos
E pensais que o credor tem todos os direitos
E o pobre devedor tem todos os deveres.


Ó vós que desprezais a mulher e o poeta
Em nome de vossa vã sabedoria
Vós que tudo comeis mas viveis de dieta
E achais que o bem do alheio é a melhor iguaria.


Ó vós, homens da sigla; ó vós, homens da cifra
Falsos chimangos, calabares, sinecuros
Tende cuidado porque a Esfinge vos decifra...
E eis que é chegada a vez dos verdadeiros puros.






Nada do que digo tem a ver com ninguém em especial ou com o post que li no blog da Fofa (Carol)
Na verdade só puxou o gatilho, na verdade.
Crítica social tem desses momentos.
Por isso abro meus blogs nessa segunda 29 de novembro  de retomada com esse material aqui.
Bjins

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